O Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço, é representado, de 11 a 13 de fevereiro, em Abuja, nas celebrações dos 50 anos de assassinato do General Murtala Ramat Muhammed, pelo Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República, Dionísio Manuel da Fonseca.
As cerimónias abertas no dia 5 de fevereiro, em Lagos (cenotáfio) e Kano (sua terra natal), estão a ser dominadas por tributos, orações e conferências sobre a visão Pan-africana de Murtala Muhammed, 50 anos depois do seu assassinato.
O Ministro de Estado chegou nesta terça-feira, 10/02, a Abuja, foi recebido pelo Embaixador de Angola na Nigéria José Bamóquina Zau e vai participar de uma reunião de alto nível com líderes, diplomatas e parceiros africanos em homenagem à vida e ao legado do General Murtala Muhammed.
Quinta-feira, 12/02, o Ministro de Estado Dionísio Manuel da Fonseca vai discursar, em nome do Presidente João Lourenço, numa Conferência Internacional subordinado ao tema A ÁFRICA ATINGIU A MAIORIDADE?
A conferência pretende revisitar a visão pan-africanista de Murtala Muhammed para a emancipação política de vários países do continente e desbravar a trajectória contemporânea de África na política global.
De resto, A ÁFRICA ATINGIU A MAIORIDADE? é o título do discurso proferido por Murtala Muhammed a 11 de janeiro de 1976 durante a Cimeira Extraordinária da Organização de Unidade Africana – OUA dedicada à admissão de Angola.
Hoje o ministro efectuou uma visita de cortesia à ex-Primeira Dama da Nigéria, Ajoke Murtala Muhammed(1975-1976), viúva do antigo Chefe de Estado e conservacionista botânica. Dionísio da Fonseca agradeceu a viúva pela forma frontal e decisiva como a Nigéria apoio o processo de descolonização dos países africanos, especial a República de Angola.
O Ministro encontrou-se também com os Governadores dos Estados de Bayelsa e Nasarawaaos quais incentivou a implementação dos Acordos de Geminação assinados em 2025 com as províncias angolanas de Namibe e Bengo.
BUSTOS DE GRATIDÃO
Para marcar os 50 anos da morte do Presidente Murtala Muhammed, a República de Angola ofereceutrês bustos do General à sua fundação e as autoridades da Nigéria.
Os bustos serão posicionados nas Cidades de Luanda (Avenida Murtala Muhammed à Ilha do Cabo), em Lagos na sua Fundação e em Abuja, como forma de perpetuar o legado da sua política externa e símbolo de gratidão do povo angolano.
Na lápide dos bustos o Presidente João Lourenço escreveu: “O povo angolano será sempre grato pela nobreza da sua contribuição para a nossa independência”, sic.
A entrega simbólica dos bustos à Fundação MurtalaMuhammed será feita nesta quinta-feira, em Abuja,pelo Ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República, Dionísio Manuel da Fonsecana presença do Presidente da Fundação e antigo estadista nigeriano, Olusegun Obasanjo.
A filha e Presidente da Fundação MM, Aisha Murtala, descreveu o gesto do Presidente João Lourenço como sendo de “muito nobre por elevar a sua dignidade e honrar a sua determinação pela causa libertadora de África”.
Em novembro de 2025, recorde-se, o Presidente João Lourenço condecorou o General Murtala Muhammedcom a Medalha de Honra celebrativa aos 50 anos da Independência de Angola pela sua coerência política e visão pan-africana.
DIMENSÃO DE MURTALA
O General Murtala Ramat Mohammed, foi o 4º Presidente da República Federal da Nigéria, assassinado a 13 de Fevereiro de 1976, depois do seu regresso de uma Cimeira da OUA sobre Angola,em Adis Abeba.
Ele governou a Nigéria num curto período de Julho de 1975 a Fevereiro de 1976 depois de suceder o também General, ainda em vida, Yakubu Dan-Yumma “Jack” Gowon (1934). É muçulmano nascidoa 8 de Novembro de 1938, no Estado de Kano. Em 1971 aos 33 anos, tornou-se o General de Brigada mais jovem da Nigéria. Cumpriu missões militares no Congo que lhe inspiraram a visão pan-africana de liberdade e autodeterminação.
Foi defensor incondicional da emancipação política de Angola e da sua entrada nos círculos internacionais da indústria do petróleo e gás onde a Nigéria já tinha assento cativo.
Ofereceu as primeiras 20 bolsas de estudo a jovens angolanos que cursaram nas Universidades de Kaduna, Lagos e Calabar, bem como apoio financeiro para o funcionamento do primeiro Governo do Presidente Agostinho Neto.
Visionário e patriota, no seu curto mandato decretou a 3 de fevereiro de 1976 (dez dias antes da sua morte) a criação da cidade de Abuja onde foi transferida a capital, bem como a divisão político-administrativa do país com sete novos Estados (Bauchi, Benue, Borno, Imo, Niger, Ogun e Ondo)elevando para dezanove (1976). Actualmente a Nigéria tem 36 Estados mais o Território da Capital Federal.
O DISCURSO DA MORTE
11 de novembro de 1975. O Presidente Agostinho Neto proclama a Independência de Angola sob trovoar de canhões à volta de Luanda, depois de 14 anos de Luta Armada iniciada a 4 de fevereiro de 1961.
Semanas depois as empresas petrolíferas, em especial, a Cabinda Gulf Company, decidem abandonar Angola como acto de boicote à economia de um país emergente. A resposta de MurtalaMuhammed foi peremptória e incisiva. “Quem abandonar Angola, abandona também a Nigéria”. Surpresos, recuam na decisão.
7 de janeiro de 1976. O presidente dos EUA, Gerald Rudolph Ford escreve ao General MurtalaMuhammed condenando o seu apoio ao MPLA e ao reconhecimento imediato da independência de Angola. A carta publicada no dia seguinte nojornal New York Times dizia o seguinte: “Como Presidente de um país que tem responsabilidades globais, quero que saiba quão seriamente encaramos esta intervenção soviética a 13.000 quilómetros das suas fronteiras. Fora da sua área tradicional de interesse de segurança. A acção soviética poderá ter graves implicações futuras... Não podemos, contudo, ficar de braços cruzados se a intervenção soviética e cubana persistir”.
11 de janeiro de 1976. Murtala Muhammed respondeà carta do Presidente Gerald Ford com um discurso demolidor na Conferência Extraordinária da Cimeira da Organização da Unidade Africana – OUA, em Adis Abeba, dedicado à Angola.
Eis alguns extractos do seu discurco:
▪ “Vale a pena recordar que aqueles que procuram agora ditar uma solução para Angola à OUA foram os mesmos “benfeitores” e autodenominados guardiões da consciência moral do mundo que condenaram as resoluções da OUA de 1967 e 1968 sobre a Nigéria. Foi provado que estavam errados na Nigéria, e serão igualmente provados que estavam errados em Angola.
África atingiu a maioridade. Já não está sob a órbita de nenhuma potência continental extra. Não deveria mais receber ordens de nenhum país, por mais poderoso que fosse. A sorte de África está nas nossas mãos para fazer ou estragar…” sic.
▪ “À medida que as forças do nacionalismo africano começaram o seu ataque aos bastiões do colonialismo na África Setentrional, Ocidental e Oriental, as forças de exploração voltaram-se cada vez mais para a África Austral para fazer uma última resistência. Foi traçada uma linha imaginária para além da qual o “vento da mudança” de Harold Macmillan não poderia soprar, a ser sustentada pela aliança profana que veio a ser conhecida como o eixo Pretória-Lisboa-Salisbury…” sic.
▪ “A confusão e o pânico foram naturalmente lançados nas fileiras dos racistas da África Austral. Com o colapso de um ponto crucial do eixo Lisboa-Pretória-Salisbury, o apartheid estava condenado a ficar cara a cara com a África revolucionária.
Tendo parte da zona tampão desmoronada, as forças da liberdade estão à porta dos racistas e dos apóstolos do apartheid. Esta é a situação de crise que levou a África do Sul a embarcar na aventura mais ousada de todas, ao enviar descaradamente uma força invasora para Angola.
A intenção é clara. É esmagar o mais poderoso e o mais nacionalista dos Movimentos de Libertação – o MPLA. Depois disso, o regime sul-africano espera instalar um governo fantoche em Angola e depois voltar a sua atenção para fomentar problemas em Moçambique. A recente tentativa de rebelião em Moçambique é instrutiva neste contexto, Sr. Presidente…” sic.
▪ “Naturalmente, pela sua importância estratégica no Atlântico Sul, pelos seus recursos naturais e pela força e dinamismo do MPLA, Angola tornou-se uma área de grande interesse. Estrategicamente, existem esses países. incluindo a África do Sul e, obviamente, os Estados Unidos que estão assustados com a emergência de um governo verdadeiramente nacionalista que insistirá nos direitos soberanos de Angola para controlar tanto o seu território como o mar que lhe pertence.
A esperança de uma base estrangeira para policiar esta parte do oceano é inconcebível, a menos que sejam instalados fantoches no poder…” sic.
▪ “Não satisfeito com o seu apoio clandestino e o derramamento de armas em Angola para criar confusão e derramamento de sangue, o Presidente dos Estados Unidos decidiu instruir os Chefes de Estado e de Governo africanos, através de uma carta circular, a insistir na retirada dos conselheiros soviéticos e cubanos de Angola como pré-condição para a retirada dos sul-africanos e de outros aventureiros militares.
Isto constitui uma presunção intolerável e um insulto flagrante à inteligência dos governantes africanos…” sic.
▪ “O Governo Militar Federal Nigeriano deixou profundamente claro que o MPLA é o mais dinâmico, o mais nacionalista de todos os movimentos que representam os interesses do povo angolano, e reforçou de que possui os atributos de um Governo eficaz, unindo-se a outros países africanos na concessão do seu reconhecimento.
É dever desta Sessão de Cimeira completar o processo empreendido até agora pelos Governos individuais, concedendo por unanimidade o reconhecimento da nossa Organização ao Governo do MPLA…” sic.
▪ “A nova arma não é mais a Bíblia e a bandeira, mas a desestabilização e os armamentos. África, Senhor Presidente, deveria mostrar a sua consciência deste novo perigo e ver a situação angolana não como um assunto isolado, mas como parte de um perigo maior. Nessas circunstâncias, Sr. Presidente, esta Assembleia tem diante de si uma escolha clara. Deveria apoiar o MPLA como único Governo de Angola e convidar o seu Presidente, Dr. Agostinho Neto, para ocupar o seu lugar de honra entre nós…” sic.
13 de fevereiro de 1976, um mês depois, éassassinado numa emboscada, em Ikoyi, cidade de Lagos, antiga capital da Nigéria.







